DISCURSO DE PROF. PARANINFIO - UNISUAM 2007.1
Hoje tenho a honra de participar da formatura da turma 2007.2, onde fui convidado para ser professor paraninfo. Gostaria de usar o blog para dividir o discurso que produzi com os visitantes. Abraço!
Ilmo Sr. Reitor, coordenação do curso de Licenciatura em Educação Física, professores homenageados, pais e amigos presentes, caros/as formandos, bom dia.
Foi com muita alegria que recebi o convite desta turma para ser paraninfo (aliás vocês inauguraram essa oportunidade em minha caminhada acadêmica). Desde já quero deixar manifesto o meu agradecimento a todos/as vocês da turma 2007.2, sobretudo por saber que essa escolha não é simples, no contexto de uma trajetória na qual tivemos tantos docentes que nos deixaram marcas importantes para nos tornarmos educadores. É por essa via que quero iniciar minhas palavras: gostaria que me interpretassem como um porta voz desses muitos colegas que ajudaram a construir os profissionais que hoje se reúnem para comemorar mais uma etapa das suas vidas.
Inicialmente foi muito difícil construir um discurso para esse momento... Tentei lembrar-me de quando fui orador de minha turma, há mais de uma década... Acabei encontrando aquele discurso e reli as coisas que eu disse naquela ocasião... Fiquei feliz de observar que o tempo nos transforma – lapidando-nos, nos permitindo “ler” com mais acuidade a realidade complexa na qual vivemos e iremos atuar. Contudo, se somos engajados, o tempo não modifica nossos ideais de sociedade, educação e Educação Física. Considero esse um dos maiores desafios do profissional de educação hoje no Brasil: manter-se fiel aos seus ideais e não esmorecer diante do cenário catastrófico com o qual se depara na prática pedagógica cotidiana.
Num desses dias em que fiquei pensando no que dizer aqui, peguei o convite que a comissão de formatura me entregou em mãos e folheei-o com calma, mas já na primeira página, parei e li com atenção a mensagem inicial, que diz: “A partir de agora nos sentimos mais completos... Dentro em breve estaremos com um diploma nas mãos concretizando nossos sonhos e os nossos ideais...”.
Bingo! - Eu pensei - É por aqui que irei começar minha reflexão. Certamente este momento significa mais um passo na caminhada de vocês, mas nãos se considerem “completos” como educadores ou tendo realizado “o sonho”. Intepretem esse momento como o primeiro, aquele que inaugura um processo sem fim de aperfeiçoamento profissional e de busca da realização de sonhos. Quero enfatizar: “s o n h o s”, no plural.
É o que estamos precisando na educação brasileira, sobretudo naquelas escolas cujos bancos são frequentados pela classe trabalhadora, que por muito tempo tem sido mantida à margem de uma educação de qualidade, tornando-se alienada de sua própria condição de classe e estando à mercê da manipulação política e da possibilidade de exercer a própria cidadania.
Não precisamos de mais docentes que completam o ensino superior e se julgam “prontos” para lecionarem, “donos do saber”; mas de educadores que estejam de prontidão para continuarem aprendendo, ao longo se sua trajetória profissional, a partir da relação com os seus alunos e da reflexão constante sobre a sua prática pedagógica, sempre ancorada na realidade social na qual lecionam.
Realidade que a Educação Física escolar, como tanto discutimos em nossas aulas, têm “fechado os olhos” ao se negar transmitir um conhecimento relacionado à Cultura Corporal, que ultrapasse o gesto motor e tenha significado para o mundo vivido das crianças e adolescentes, que ficam mais de uma década sob nossa supervisão, participando das aulas de Educação Física escolar.
Hoje, vocês, formandos, têm uma missão a cumprir: transformar os conhecimentos adquiridos na graduação nas bases para a construção de uma prática pedagógica comprometida com a mudança social de uma realidade desigual na qual nossa sociedade se encontra. Cada um deve estar ciente do papel que a educação, numa ótica crítica e transformadora, pode cumprir. Nesse sentido, receberam conhecimentos para interpretar a realidade concreta na qual a Educação Física irá atuar em prol da formação de um “cidadão emancipado”, reflexivo, interventor e questionador.
Cada um tem consciência que para alcançar esse objetivo, deverá ensinar “pelo movimento” e não continuar a apresentar uma prática analítica, reprodutora, mecânica e alienante, que historicamente nossa área desenvolveu nas escolas, a partir da influência dos interesses médicos, militares e esportivos. Há um desafio a cumprir: a reversão de um quadro no qual o docente de Educação Física é representado como ‘fabricante’ de atletas, disciplinador, organizador de atividades e eventos escolares, enfim, um analfabeto político, em prol da construção da imagem de um profissional que assume um importante compromisso na engrenagem social: um compromisso com a mudança.
Após cerca de mais de duas décadas, podemos afirmar que a Educação Física brasileira está construindo sua autonomia para produzir um conhecimento científico, teoricamente ancorado na realidade social; porém, ainda caminha longe da legitimidade que outros componentes curriculares já conquistaram na escola. Exemplo dessa autonomia são as inúmeras propostas pedagógicas consolidadas e intelectuais de expressão internacional que vocês conheceram com seus professores/as ao longo deste curso.
Contudo, o conhecimento produzido por esses intelectuais ainda trilha vias que não vêm convergindo com os muros das escolas e de seus docentes. Ainda encontramos um abismo entre a realidade produção acadêmica de nossa área, que ocorre nos mais de vinte programas de mestrado e doutorado no país; e a prática pedagógica dos docentes que estão vivenciando a realidade do ensino da Educação Física nas escolas.
Sendo assim, estejam cientes que no curto período de tempo que cada um passou pela grade curricular dessa universidade, devem ter aproveitado o máximo de seus professores/as. Espero que muitos de vocês tenham interrompido aulas para questionarem os professores, para refletirem idéias de autores/as, para relatarem experiências pessoais que enriqueceram nossas aulas, que nos tenham procurado solicitando interesse maior na leitura de outros textos, além daquele que solicitamos. Esses alunos/as nos trazem uma satisfação enorme no processo de ensino e aprendizagem. Nesse momento percebemos que “atingimos o alvo”, despertamos o desejo de aprender, de buscar o conhecimento, característica fundamental no proceso de ensino; processo que vocês começarão, de fato, a vivenciar agora.
Que tenham a plena consciência de sua função como educadores físicos. Que não esmoreçam diante das inúmeras dificuldades que enfrentarão devido à nossa história enquanto disciplina escolar. Que saibam argumentar a relevância de nossa existência no currículo e justificar uma prática pedagógica densamente construída a partir dos conhecimentos teóricos e práticos que aqui receberam.
Hoje, neste palco, finda uma trilha de lutas, alegrias, confissões, noites de estudo, descobertas, ansiedades, concessões, mas principalmente aprendizagem. Aqui se inicia uma longa caminhada, que será traçada singularmente por cada um de vocês, de acordo com o que acreditam e buscam enquanto projeto de sociedade, educação, Educação Física. De aprendizes passam a mestres. Boa sorte em cada passo dessa caminhada e que nunca se esqueçam da responsabilidade de ser um educador num país como o Brasil.
Mais uma vez obrigado pelo convite para estar aqui presente, nesse momento importante na vida de cada um de vocês. Que eu possa reencontrá-los em outras salas de aula, em breve. Obrigado.
Escrito por Prof. Dr. Fabiano Pries Devide às 07h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|