Divulgo abaixo os resumos dos trabalhos [pôsters e comunicações orais] apresentadas por pesquisadores do Grupo de Pesquisa "Gênero na Educação Física e no Desporto" (CNPq), liderado por mim, no II SEMINÁRIO INTERNACIONAL: Enfoques Feministas e o Século XXI: Feminismo e Universidade na América Latina - VI ENCONTRO DA REDE BRASILEIRA DE ESTUDOS E PESQUISAS FEMINISTAS – REDEFEM - II ENCONTRO INTERNACIONAL POLÍTICA E FEMINISMO, realizado de 10 a 13 de Junho de 2008, na Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG. Os textos completos dos trabalhos podem ser conferidos no CR-rom do evento. Saudações acadêmicas a todos!
ESTUDOS DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA: CONSTRUINDO UM QUADRO TEÓRICO
Renato Callado Ferreira (PGCAF-Universo, PUC/RJ); Emerson SaintClair (PGCAF-Universo; UNIG/RJ; Luiz Carlos Pessoa Nery (PGCAF-Universo); Elza Rosa da Silva (PGCAF–Universo, SME/RJ, SEE/RJ); Fabiano Pries Devide (Grupo de Pesquisa ‘Gênero na Educação Física e no Desporto’ - PGCAF-Universo, Unisuam/RJ)
O estudo é resultado da disciplina Tópicos Especiais em Educação Física, Cultura e Sociedade: Estudos de Gênero na Educação Física Brasileira, do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Atividade Física (PGCAF-Universo). Visa responder ao seguinte problema: Como se configura o quadro teórico atual dos estudos de gênero na Educação Física (EF) no Brasil? Os objetivos são: i) identificar correntes teóricas utilizadas nos estudos; ii) refletir sobre as temáticas recorrentes; iii) apontar lacunas; iv) mapear grupos de pesquisa sobre gênero na EF cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa (CNPq), assim como intelectuais dessa área temática na EF (Portal da Inovação/Ministério de Ciência e Tecnologia/MCT); e v) enumerar as principais obras (livros) sobre Gênero e EF publicadas no país. A pesquisa apresenta caráter descritivo e documental, utilizando como fontes, dados da produção teórica da EF, representada por livros, artigos, dissertações, teses e bases de dados. Os resultados permitem afirmar que os Estudos de Gênero na EF iniciam no fim da década de 1980, ganhando expressão na década de 1990, com a consolidação de linhas de pesquisa em programas de pós-graduação stricto sensu, teses, dissertações, livros e artigos (Goellner, 2001). Tais estudos na EF podem ser organizados em três correntes predominantes: marxista, culturalista e pós-estruturalista (Júnior, 2003), dentre as quais as duas últimas têm predominado, utilizando como teóricas centrais Scott (1995, 2005), Butler (2003) e Louro (2001a, 2001b, 2004). Dentre as temáticas recorrentes, destacamos: a) Metodologias de ensino na EF escolar (aulas mistas, separadas por sexo, co-educativas); b) Estereótipos relacionados às práticas corporais na EF no Esporte; c) Mecanismos de inclusão, exclusão e auto-exclusão na EF escolar; História das Mulheres no Desporto; Representações Sociais de Gênero na mídia esportiva; Mulheres em posições de comando no Desporto; e Desporto e Identidades de Gênero (masculinidades e feminilidades). Entretanto, tais estudos ainda apresentam uma abordagem focalizada nas mulheres, com lacunas de ordem epistemológica, analítica, conceitual e política (Goellner, 2005). Foi possível identificar na literatura da EF, dez livros publicados sobre a temática, sendo pioneira a obra “Corpo, Mulher e Sociedade”, organizada por Elaine Romero (1995). O mapeamento no Diretório de Grupos de Pesquisa/CNPq e no Portal da Inovação/MCT identificou a existência de grupos consolidados na EF e intelectuais com doutoramento na área Gênero na interface com EF escolar, Desporto, Lazer e História das Mulheres.
Referências básicas:
BUTLER, J. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
GOELLNER, S. V. Gênero, Educação Física e esportes. In: VOTRE, S. B. (org.). Imaginário e representações sociais em Educação Física, esporte e lazer. Rio de Janeiro: UGF, 2001. p. 215-227.
GOELLNER, S. V. Gênero. In: GONZÁLEZ, F. J.; FENSTERSEIFER, P. E. Dicionário Crítico de Educação Física. Ijuí: Unijuí, 2005. p. 207-209.
JÚNIOR, A. Educação Física e Gênero: olhares em cena. São Luís: Imprensa UFMA/CORSUP, 2003.
ROMERO, E. Corpo, Mulher e Sociedade. Campinas: Papirus, 1995.
LOURO, G. L. Gênero, Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 2001.
SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre. v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE LICENCIANDOS EM EDUCAÇÃO FÍSICA SOBRE AS QUESTÕES DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
Ilza Pereira Silva (PIBIC/Unisuam/RJ); Morjana Britto Peçanha (PIBIC/Unisuam/RJ); Fabiano Pries Devide (Unisuam/RJ; PGCAF/Universo/RJ)
Os Estudos de gênero na Educação Física (EF) na última década refletem a emergência desta categoria na EF (Goellner, 2001, 2005; Luz Júnior, 2003). No que tange à temática da Educação Física escolar (EFe), área de atuação dos futuros formandos do Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam), os estudos têm focalizado: i) aplicabilidade de propostas pedagógicas co-educativas (Saraiva, 1999; Gomes, Silva & Queirós, 2004); ii) representações sociais de docentes e discentes sobre as aulas Mistas e Separadas por Sexo (Abreu, 1995; Louzada, Devide, 2006; Louzada, Votre, Devide, 2007); iii) mecanismos de inclusão e exclusão relacionados ao gênero (Sousa, Altmann, 1999; Altmann, 2002; Pereira, 2004; Lima, Batista Rodrigues & Devide, 2005; Andrade, Devide, 2006; Duarte, Mourão, 2007); e iv) a construção de identidades de gênero pela cultura corporal (Sayão, 2002). Entretanto, o abismo entre a produção acadêmica e a aplicabilidade de propostas concretas na educação básica, gera a necessidade de investigações sobre como esta temática tem circulado nos cursos de EF (Romero, 1990; Saraiva, 2002; Luz Júnior, 2003), aprimorando a formação profissional com foco na inclusão, especificamente de gênero. Este Estudo de Caso, realizado na Unisuam, apresenta caráter qualitativo e descritivo (Posselon, 2004). Visa responder ao Problema: Quais as representações sociais de licenciandos em EF sobre as questões de Gênero na EFe? O objetivo é identificar os elementos constituintes das representações sociais desses atores sociais sobre as questões de gênero na EFe. Como percurso metodológico, utilizamos a pesquisa documental e a entrevista estruturada: i) análise da grade curricular e ementas do curso de Licenciatura em EF da Unisuam; ii) entrevistas com os discentes concluintes do curso. Os referenciais teórico-metodológicos para interpretação dos dados são: Teoria de Gênero (Scott, 1995, 2005; Louro, 2001); Análise de Conteúdo (Bardin, 1995); e Teoria das Representações Sociais (Sá, 1998; Spink, 1995; Moscovici, 1978, 2003). Os resultados permitem afirmar que as questões de gênero permanecem à margem na formação profissional em EF, não se constituindo numa temática circulante, que auxilie o futuro docente a problematizar as relações de gênero no âmbito das aulas de EFe, visando a inclusão.
Bibliografia básica:
BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1995.
LUZ JÚNIOR, A. Educação Física e Gênero: olhares em cena. São Luis: Imprensa Universitária UFMA/CORSUP, 2003.
LOURO, G. L. Gênero, Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes, 2001.
MOSCOVICI, S. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
ROMERO, E. Estereótipos masculinos e femininos em professores de educação física. 1990. Tese (Doutorado em Psicologia) - Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1990.
SARAIVA, M. do C. Por que investigar as questões de gênero no âmbito da Educação Física, Esporte e Lazer? Motrivivência. ano XIII, n. 19, p. 79-85, 2002.
SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre. v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.
O EXERCÍCIO FÍSICO COMO ELEMENTO NA (RE)CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOBRE A MASCULINIDADE
Renata Silva Batista (PIBIC/Unisuam/RJ); Fabiano Pries Devide (Unisuam/RJ; PGCAF/Universo/RJ).
A produção acadêmica sobre Gênero reflete a emergência desta nova temática na Educação Física brasileira (Romero, 1995, 1997; Votre, 1996; Saraiva, 1999; Simões, 2003; Júnior, 2003; Goellner, 2003; Simões e Knijnik, 2004; Devide, 2005). Entretanto, os estudos sobre a masculinidade na interface com o gênero são escassos (Fraga, 2000; Gonçalves, Munarin, Gonçalves, 2002), em comparação com a América do Norte e Europa (Dunning, 1992; Messner, 1994; Pronger, 1992; Dunning, Maguire, 1997). Pressupõe-se que o exercício físico tem sido elemento importante na construção da masculinidade no homem contemporâneo, a partir das modificações que proporciona na saúde, notadamente, na estética corporal, através de anatomias masculinas contemporâneas. O estudo interpreta a mídia dirigida ao público masculino como via de construção de representações sobre a masculinidade ancoradas no corpo. Tem por objetivo investigar o papel do exercício físico na construção das representações sobre a masculinidade multifacetada e em crise (Nolasco, 1995), utilizando o gênero como categoria de análise (Scott, 1995). O corpus documental foi constituído pelas doze primeiras edições da Revista masculina Men’s Health. A análise dos dados organizou-se nas etapas: pré-análise, com leitura exploratória das edições; análise iconográfica das capas das edições; e análise de conteúdo das matérias sobre exercício físico. Os referenciais teórico-metodológicos para interpretação das fontes foram: Análise de Conteúdo (Bardin, 1995) e a Iconografia (Eco, 1997; Kossoy, 2001; Bauer, Gaskell, 2004). Os resultados apontam que o periódico é dirigido ao público masculino, adulto, branco, heterossexual e economicamente favorecido. O elemento icônico central das capas é o corpo masculino ideal, cuja musculatura é a protagonista de uma anatomia de consumo (Fraga, 2000); enquanto as manchetes sobre exercícios físicos destacam-se entre os elementos textuais. A análise do conteúdo interno permitiu a construção de duas categorias centrais: Masculinidade Hegemônica e Outras Masculinidades (Connel, 1995), identificadas em matérias sobre: exercício físico, sexo, saúde, nutrição, trabalho, moda e beleza. A análise do conteúdo das matérias sobre exercício físico - com destaque para a modalidade de musculação - resultou na construção de subcategorias relacionadas à Masculinidade Hegemônica: aptidão física, competitividade, machismo, heterossexualidade; e às Outras Masculinidades: estética. Conclui-se que no contexto da Men’s Health, o exercício físico é um elemento central na construção da masculinidade, ancorando elementos da Masculinidade Hegemônica. Entretanto, outras seções do periódico apresentam elementos constituintes da configuração de outras masculinidades.
Bibliografia básica:
CONNELL, R. W. Políticas da masculinidade. Educação & Realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206, 1995.
DUNNING, E.; MAGUIRE, J. As relações entre os sexos no esporte. Estudos Feministas. IFCS/UFRJ. Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 312-348, 1997.
FRAGA, A B. Anatomias de consumo: investimentos na musculatura masculina. Porto Alegre, Educação e Realidade. v. 25, n. 2, p. 135-150, 2000.
MESSNER, M. A. Power at Play: sports and the problem of masculinity. Boston: Beacon Press, 1992.
NOLASCO, S. (org.). A desconstrução do masculino. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
PRONGER, B. The arena of masculinity: sports, homosexuality, and the meaning of sex. New York: St. Martin´s Press, 1992.
SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre. v. 20, n. 2, p. 71-99, 1995.
Escrito por Prof. Dr. Fabiano Pries Devide às 23h56
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