MULHERES DO BRASIL NA CHINA, PARABÉNS!
Boa tarde a todos... Aliás, uma tarde dourada! Assistindo a final de vôlei de quadra e assistindo as mulheres brasileiras recebendo a medalha de ouro, não resisti em escrever algumas linhas refletindo sobre a importância dos XXIX Jogos Olímpicos de Pequim para o esporte feminino no Brasil, uma vez que tenho sido um pesquisador na área de Estudos de Gênero, que na Educação Física brasileira, inicia sua trajetória com os estudos focalizados nas mulheres (LUZ JÚNIOR, 2003).
Os XXIX Jogos Olímpicos Modernos de Verão, realizados em Pequim chegam ao seu encerramento sem a melhor campanha do Brasil em termos de medalhas, mas inquestionavelmente representa uma evolução das atletas brasileiras no esporte de alto rendimento. Interpretando o esporte enquanto uma área de reserva masculina (DUNNING, 1992; DEVIDE, 2005), sobretudo o alto rendimento e determinadas modalidades – como as lutas, por exemplo – os resultados das mulheres brasileiras traduzem um movimento inevitável de conquista de espaços nesta arena.
Hoje, podemos dizer que o pioneirismo da professora Maria Lenk, primeira mulher sul-americana a participar dos Jogos Olímpicos Modernos, em Los Angeles, 1932, colhe seus frutos mais maduros. Se na década de 1930, a participação feminina era discreta, senão uma curiosidade, hoje é representativa (DEVIDE, 2003, 2004).
A participação das mulheres do Brasil no pódio dos Jogos Olímpicos Modernos iniciou em Atlanta, 1996, de forma gloriosa, com as medalhas de ouro e prata conquistadas, respectivamente, por Jacqueline Silva/Sandra Pires e Mônica/Adriana Behar, no vôlei de praia; além das medalhas de prata e bronze, respectivamente, com as seleções femininas de basquete e vôlei.
Em Sidney, 2000, as medalhas das mulheres vieram com o vice-campeonato olímpico no vôlei de praia, com Adriana Behar/Shelda; além das medalhas de bronze, com Sandra Pires/Adriana (vôlei de praia) e com as seleções femininas de basquete e vôlei.
Nos XXVIII Jogos Olímpicos de Atenas, 2004, as mulheres conquistaram menos espaço no pódio olímpico, com as duas medalhas de prata, respectivamente, no vôlei de praia, com Adriana Behar/Shelda; e com a seleção feminina de futebol de campo.
A grande evolução da participação das mulheres como atletas nos Jogos Olímpicos dá-se em Pequim, 2008. Surgem as primeiras medalhas em modalidades individuais: a medalha de bronze de Ketleyn Quadros, no judô, na categoria até 57kg; a medalha de ouro de Maurren Maggi, no salto em distância após doze anos sem as mulheres brasileiras subirem ao lugar mais alto do pódio; a medalha de bronze de Fernanda Oliveira e Isabel Swan, na vela - classe 470; além da medalha de bronze de Natália Falavigna, no taekwondo, categoria acima de 67kg. As conquistas das mulheres ainda são coroadas com os esportes coletivos, com a medalha de prata do futebol de campo e o ouro inédito da seleção de vôlei.
Importante ressaltar a importância das medalhas individuais em modalidades de reserva masculina, como o judô e o taekwondo, além de superar os melhores resultados individuais até então conquistados no passado: quartas colocações de Aída dos Santos, no salto em altura, em Tóquio-64; e de Natália Falavigna, do taekwondo, em Atenas-2004. Além das quintas colocações de Piedade Coutinho, nos 400 metros nado livre, em Berlim, 1936; e de Joana Maranhão, nos 400 metros medley, em Atenas, 2004.
Os Jogos Olímpicos de Pequim marcam o recorde de mulheres participantes na delegação brasileira (133), garantindo quase metade das medalhas do país (6), saindo de uma posição de coadjuvantes e melhorando os resultados de Atlanta (um ouro, duas pratas e um bronze) e Sidney (uma prata e três bronzes).
As mulheres brasileiras – insistentemente chamadas de “meninas”, “musas” e “sereias” pela mídia esportiva, que tem explorado mais sua sensualidade e beleza do que sua capacidade atlética (ROMERO, 2004; SOUZA, KNIJNIK, 2007; DEVIDE, LIMA, RODRIGUES, BATISTA, 2008; GOMES, SILVA, QUEIRÓS, 2008), passam a ancorar características até então só associadas aos homens: combatividade, competividade, raça, vigor, força, vitória, potência, superação, modificando as representações sociais sobre a sua participação no esporte.
Importante se faz frisar que tal evolução não tem se dado no mesmo ritmo em outros espaços do esporte, como o jornalismo esportivo, a administração esportiva, a gestão esportiva e o treinamento esportivo (MOURÃO, GOMES, 2004; OLIVEIRA, 2004). Tais posições de comando ainda são associadas à masculinidade e apresentam pouca representatividade feminina. Outras iniciativas são necessárias para que o equilíbrio na participação de homens e mulheres como atletas no esporte olímpico, também se dêem em outras áreas do esporte.
Um abraço a todos/as que como eu, hoje, torceu pelo Brasil e pelas nossas mulheres!
DEVIDE, F. P. Gênero e Mulheres no Esporte: História das Mulheres nos Jogos Olímpicos Modernos. Ijuí: Unijuí, 2005.
DEVIDE, F. P.; LIMA, F. R.; RODRIGUES, F. S.; BATISTA, R. Produção de sentidos sobre a visibilidade de mulheres atletas no jornalismo esportivo: interpretações a partir do caderno de esporte do jornal ‘O Globo’. In.: ROMERO, E.; PEREIRA, E. G.B. (Orgs.). Universo do Corpo: masculinidades e feminilidades. Rio de Janeiro: Shape/Faperj, 2008.
DEVIDE, F. P. Histórias das Mulheres na Natação Feminina Brasileira no Século XX: das adequações às resistências sociais. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro, UGF, 2003. 347p.
DEVIDE, F. P. A natação como elemento da cultura física feminina no início do século XX: construindo corpos saudáveis, belos e graciosos. Movimento, Porto Alegre, v. 11, n. 2, p. 125-144, 2004.
DUNNING, E. O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais na identidade masculina e as suas transformações. In. ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.
GOMES, P. B.; SILVA, P.; QUEIRÓS, P. Distintos registros sobre o corpo feminino: beleza, desporto e mídia. In.: ROMERO, E.; PEREIRA, E. G.B. (Orgs.). Universo do Corpo: masculinidades e feminilidades. Rio de Janeiro: Shape/Faperj, 2008.
LUZ JÚNIOR, A. Educação Física e Gênero: olhares em cena. São Luis: Imprensa Universitária UFMA/CORSUP, 2003.
OLIVEIRA, G. A. S. de. Mulheres enfrentando o desafio da inserção, ascensão e permanência no comando de equipes esportivas de alto nível. In.: SIMÕES, A. C.; KNIJNIK, J. D. (Orgs.). O mundo psicossocial da mulher no esporte: comportamento, gênero e desempenho, 2004.
SOUZA, J. S.; Knijnik, j.d. A mulher invisível: gênero e esporte em um dos maiores jornais diários do Brasil. Revista brasileira de Educação Física, v. 21, n.1, p.35-48, 2007.
Escrito por Fabiano Pries Devide às 13h21
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