GÊNERO NA EDUCAÇÃO FÍSICA, DESPORTO E LAZER - Prof. Dr. Fabiano Pries Devide


FOLHA DE SAO PAULO, sexta-feira, 15 de agosto de 2008
O triunfo da mulher sobre o sexismo. A medalha feminina no judô, que, no Brasil, chegou a ser proibido para mulheres por 38 anos, deve ser louvada
PEDRO ABRAMOVAY
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os Jogos Olímpicos despertam um fascínio sobre nós muitas vezes  difícil de ser compreendido. A idéia de países disputando medalhas, e  não territórios ou vantagens econômicas, fazendo isso sob as estritas  regras da competição, e não com bombas ou boicotes, é sempre  inspiradora. No Brasil, o envolvimento da população em prol de nomes,  às vezes, pouco conhecidos, quase que em uma catarse coletiva, é de  uma magnitude impressionante. No entanto, a Olimpíada de Pequim  produziu um fato político que não pode passar despercebido. A primeira  medalha brasileira em 2008 foi conquistada pela judoca brasiliense  Ketleyn Quadros, na categoria leve. A alegria desta medalha para o  Brasil não pode nos impedir de ver o enorme caráter simbólico que  possui esta vitória. A prática do judô no Brasil, introduzida pelos  imigrantes japoneses, foi proibida às mulheres pelo decreto-lei nº  3.199, de 1941. Dizia o artigo 54 do texto legal: "Às mulheres não se  permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua  natureza, devendo para este efeito o Conselho Nacional de Desportos  baixar as necessárias instruções às entidades de natureza esportiva."  O conteúdo sexista deste decreto-lei expressa de maneira clara a visão  que o Estado brasileiro tinha da "natureza" da mulher. Qualquer  prática que expusesse uma imagem de mulher que não simbolizasse  beleza, fragilidade ou obediência era um verdadeiro atentado à família 
e subverteria a ordem social instituída. Se o ano de 1941 parece  distante, é importante saber que a proibição foi mantida por muitas  décadas. E sua liberação não se deu de maneira consentida. Foi  necessário que quatro judocas -Patrícia Maria de Carvalho e Silva, Ana  Maria de Carvalho e Silva, Cristina Maria de Carvalho e Silva e Kasue  Ueda- se inscrevessem com nomes de homens no Conselho Nacional dos  Desportos (CND) para participarem do Sul-Americano de judô de 1979. A  participação brilhante das atletas, trazendo duas medalhas de ouro e  uma de bronze, conseguiu sensibilizar a sociedade brasileira e, em  lugar da punição que o CND pretendia impor à federação de judô, a  proibição foi revogada. Desta forma, em 1980 foi realizado o primeiro  campeonato brasileiro feminino da modalidade, no Rio de Janeiro. O  esporte, conforme nos ensinam sociólogos como Pierre Bourdieu, tem  sido um espaço de perpetuação de distinções e reafirmação de  dominações na sociedade. A conquista de uma medalha por uma mulher  negra, em um esporte cuja prática feminina era proibida, deve ser  celebrada como símbolo da emancipação feminina sobre as violências da  sociedade patriarcal brasileira. Neste ano, comemoramos os 20 anos da  promulgação de nossa Constituição. Não podemos nos esquecer que foi  apenas com ela que foi reconhecida a igualdade formal entre homens  mulheres em nosso país. Ainda falta muito para concretizarmos essa  promessa, mas momentos que simbolizem a reafirmação deste princípio  devem ser celebrados. Que essa medalha sirva como demonstração de que 
sempre que o preconceito for derrotado e as barreiras que impedem as  mulheres de se desenvolverem plenamente forem derrubadas, o Brasil  será o vencedor.
PEDRO ABRAMOVAY é secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça

Escrito por Fabiano Pries Devide às 16h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




MULHERES DO BRASIL NA CHINA, PARABÉNS!

Boa tarde a todos... Aliás, uma tarde dourada! Assistindo a final de vôlei de quadra e assistindo as mulheres brasileiras recebendo a medalha de ouro, não resisti em escrever algumas linhas refletindo sobre a importância dos XXIX Jogos Olímpicos de Pequim para o esporte feminino no Brasil, uma vez que tenho sido um pesquisador na área de Estudos de Gênero, que na Educação Física brasileira, inicia sua trajetória com os estudos focalizados nas mulheres (LUZ JÚNIOR, 2003).

Os XXIX Jogos Olímpicos Modernos de Verão, realizados em Pequim chegam ao seu encerramento sem a melhor campanha do Brasil em termos de medalhas, mas inquestionavelmente representa uma evolução das atletas brasileiras no esporte de alto rendimento. Interpretando o esporte enquanto uma área de reserva masculina (DUNNING, 1992; DEVIDE, 2005), sobretudo o alto rendimento e determinadas modalidades – como as lutas, por exemplo – os resultados das mulheres brasileiras traduzem um movimento inevitável de conquista de espaços nesta arena.

Hoje, podemos dizer que o pioneirismo da professora Maria Lenk, primeira mulher sul-americana a participar dos Jogos Olímpicos Modernos, em Los Angeles, 1932, colhe seus frutos mais maduros. Se na década de 1930, a participação feminina era discreta, senão uma curiosidade, hoje é representativa (DEVIDE, 2003, 2004).

A participação das mulheres do Brasil no pódio dos Jogos Olímpicos Modernos[1] iniciou em Atlanta, 1996, de forma gloriosa, com as medalhas de ouro e prata conquistadas, respectivamente, por Jacqueline Silva/Sandra Pires e Mônica/Adriana Behar, no vôlei de praia; além das medalhas de prata e bronze, respectivamente, com as seleções femininas de basquete e vôlei.

Em Sidney, 2000, as medalhas das mulheres vieram com o vice-campeonato olímpico no vôlei de praia, com Adriana Behar/Shelda; além das medalhas de bronze, com Sandra Pires/Adriana (vôlei de praia) e com as seleções femininas de basquete e vôlei.

Nos XXVIII Jogos Olímpicos de Atenas, 2004, as mulheres conquistaram menos espaço no pódio olímpico, com as duas medalhas de prata, respectivamente, no vôlei de praia, com Adriana Behar/Shelda; e com a seleção feminina de futebol de campo.

A grande evolução da participação das mulheres como atletas nos Jogos Olímpicos dá-se em Pequim, 2008. Surgem as primeiras medalhas em modalidades individuais: a medalha de bronze de Ketleyn Quadros, no judô, na categoria até 57kg; a medalha de ouro de Maurren Maggi, no salto em distância após doze anos sem as mulheres brasileiras subirem ao lugar mais alto do pódio; a medalha de bronze de Fernanda Oliveira e Isabel Swan, na vela - classe 470; além da medalha de bronze de Natália Falavigna, no taekwondo, categoria acima de 67kg. As conquistas das mulheres ainda são coroadas com os esportes coletivos, com a medalha de prata do futebol de campo e o ouro inédito da seleção de vôlei.

Importante ressaltar a importância das medalhas individuais em modalidades de reserva masculina, como o judô e o taekwondo, além de superar os melhores resultados individuais até então conquistados no passado: quartas colocações de Aída dos Santos, no salto em altura, em Tóquio-64; e de Natália Falavigna, do taekwondo, em Atenas-2004. Além das quintas colocações de Piedade Coutinho, nos 400 metros nado livre, em Berlim, 1936; e de Joana Maranhão, nos 400 metros medley, em Atenas, 2004.

Os Jogos Olímpicos de Pequim marcam o recorde de mulheres participantes na delegação brasileira (133), garantindo quase metade das medalhas do país (6), saindo de uma posição de coadjuvantes e melhorando os resultados de Atlanta (um ouro, duas pratas e um bronze) e Sidney (uma prata e três bronzes).

As mulheres brasileiras – insistentemente chamadas de “meninas”, “musas” e “sereias” pela mídia esportiva, que tem explorado mais sua sensualidade e beleza do que sua capacidade atlética (ROMERO, 2004; SOUZA, KNIJNIK, 2007; DEVIDE, LIMA, RODRIGUES, BATISTA, 2008; GOMES, SILVA, QUEIRÓS, 2008), passam a ancorar características até então só associadas aos homens: combatividade, competividade, raça, vigor, força, vitória, potência, superação, modificando as representações sociais sobre a sua participação no esporte.

Importante se faz frisar que tal evolução não tem se dado no mesmo ritmo em outros espaços do esporte, como o jornalismo esportivo, a administração esportiva, a gestão esportiva e o treinamento esportivo (MOURÃO, GOMES, 2004; OLIVEIRA, 2004). Tais posições de comando ainda são associadas à masculinidade e apresentam pouca representatividade feminina. Outras iniciativas são necessárias para que o equilíbrio na participação de homens e mulheres como atletas no esporte olímpico, também se dêem em outras áreas do esporte.

Um abraço a todos/as que como eu, hoje, torceu pelo Brasil e pelas nossas mulheres!

 

DEVIDE, F. P. Gênero e Mulheres no Esporte: História das Mulheres nos Jogos Olímpicos Modernos. Ijuí: Unijuí, 2005.

DEVIDE, F. P.; LIMA, F. R.; RODRIGUES, F. S.; BATISTA, R. Produção de sentidos sobre a visibilidade de mulheres atletas no jornalismo esportivo: interpretações a partir do caderno de esporte do jornal ‘O Globo’. In.: ROMERO, E.; PEREIRA, E. G.B. (Orgs.). Universo do Corpo: masculinidades e feminilidades. Rio de Janeiro: Shape/Faperj, 2008.

DEVIDE, F. P. Histórias das Mulheres na Natação Feminina Brasileira no Século XX: das adequações às resistências sociais. Tese de Doutorado, Rio de Janeiro, UGF, 2003. 347p.

DEVIDE, F. P. A natação como elemento da cultura física feminina no início do século XX: construindo corpos saudáveis, belos e graciosos. Movimento, Porto Alegre, v. 11, n. 2, p. 125-144, 2004.

DUNNING, E. O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais na identidade masculina e as suas transformações. In. ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

GOMES, P. B.; SILVA, P.; QUEIRÓS, P. Distintos registros sobre o corpo feminino: beleza, desporto e mídia. In.: ROMERO, E.; PEREIRA, E. G.B. (Orgs.). Universo do Corpo: masculinidades e feminilidades. Rio de Janeiro: Shape/Faperj, 2008.

LUZ JÚNIOR, A. Educação Física e Gênero: olhares em cena. São Luis: Imprensa Universitária UFMA/CORSUP, 2003.

MOURÃO, L.; GOMES, E. M. de P. Mulheres na administração esportiva brasileira: uma trajetória em curso. In.: SIMÕES, A. C.; KNIJNIK, J. D. (0rgs.). O mundo psicossocial da mulher no esporte: comportamento, gênero e desempenho, 2004. p. 305-318.

OLIVEIRA, G. A. S. de. Mulheres enfrentando o desafio da inserção, ascensão e permanência no comando de equipes esportivas de alto nível. In.: SIMÕES, A. C.; KNIJNIK, J. D. (Orgs.). O mundo psicossocial da mulher no esporte: comportamento, gênero e desempenho, 2004.

ROMERO, E. A (In)Visibilidade da mulher atleta no jornalismo esportivo do Rio de Janeiro. In.:SIMÕES, A. C.; KNIJNIK, J. D. (Orgs.). O mundo psicossocial da mulher no esporte: comportamento, gênero e desempenho, 2004.

SOUZA, J. S.; Knijnik, j.d. A mulher invisível: gênero e esporte em um dos maiores jornais diários do Brasil. Revista brasileira de Educação Física, v. 21, n.1, p.35-48, 2007.



[1] http://www.cob.org.br/home/home.asp



Escrito por Fabiano Pries Devide às 13h21
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, Portuguese, English
MSN -
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
Votação
  Dê uma nota para meu blog