Participação em matéria publicada no Jornal "PUBLICO", em Lisboa, Portugal
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Hamilton Mais um negro a quebrar uma barreira
06.11.2008, Hugo Daniel Sousa
Depois do atletismo, do futebol, do boxe, da natação, do ténis e do golfe, a Fórmula 1 também já tem um campeão negro. Hamilton foi o pioneiro e espera que o seu exemplo inspire outros. Os antropólogos explicam que esta vitória ajuda a provar que as elites mundiais estão a mudar
A história do desporto está recheada de marcos na luta pela igualdade racial. George Poage foi o primeiro negro a ganhar uma medalha olímpica (1904), Jack Johnson o primeiro pugilista a vencer o título de pesos-pesados (1908), Althea Gibson a primeira tenista afro-americana a ganhar uma prova do Grand Slam (1957), Arthur Ashe o primeiro tenista a vencer um dos quatro mais importantes torneios de ténis (1963). E Tiger Woods foi o primeiro, e único, golfista a vencer um Masters (1997). Agora, Lewis Hamilton junta-se à lista dos campeões negros, depois de, no domingo, ter vencido o Mundial de Fórmula 1. A vitória de Lewis Hamilton não é propriamente uma revolução na afirmação dos desportistas negros. Há muito que campeões como Jesse Owens, Bob Beamon, Carl Lewis (atletismo), Michael Jordan, Magic Johnson (basquetebol) e Pelé (futebol) encantaram o mundo noutras modalidades. Um pouco à semelhança do que aconteceu com Tiger Woods no golfe, o triunfo de Hamilton no automobilismo tem um significado especial, por se tratar de uma modalidade elitista, em que o dinheiro é condição fundamental para chegar ao topo. "[Ser campeão do mundo] mostrará que não só os brancos podem fazê-lo, mas também os negros, os indianos, os japoneses e os chineses", disse o piloto inglês numa entrevista à Black History Month em 2007, numa das poucas ocasiões em que comentou questões raciais. "Nem todos os desportos são da mesma natureza. Alguns estão ligados a classes mais altas e os negros estão sub-representados, porque, estatisticamente, há menos gente negra nas camadas mais ricas do mundo", explica ao P2 o antropólogo João de Pina Cabral, para quem este triunfo pioneiro de Hamilton, em pleno século XXI, é "mais uma questão de classe do que de cor": "É importante verificar que assistimos a uma alteração da natureza das elites. Assistimos a uma globalização e desocidentalização das elites, que ocorre não só com negros mas também com árabes e chineses". O investigador brasileiro Fabiano Pries Devide - que tem feito trabalhos sobre desporto e inclusão - sublinha que a fórmula 1 é mais uma das modalidades que "reproduzem a desigualdade racial no sentido da inserção de negros no desporto". "Ténis, golfe, ginástica artística, esgrima, saltos para a água são apenas algumas dessas modalidades em que raramente vemos um(a) atleta negro competindo", disse ao P2, por e-mail, este docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Actividade Física da Universidade Salgado de Oliveira, no Rio de Janeiro. Outros exemplos são o ciclismo ou a natação - esta uma modalidade com dois medalhados olímpicos (a holandesa Enith Brigitha ganhou o bronze nos 100 e 200m livres em 1976 e o suranimês Anthony Nesty ganhou o ouro nos 100m mariposa em 1988), mas sem figuras afro-americanas na actualidade. Nuno Couceiro, que lançou pilotos como Álvaro Parente e actualmente é agente de Filipe Albuquerque (um dos portugueses que tentam chegar à F1), concorda que as exigências financeiras do automobilismo explicam o reduzido número de pilotos negros: "Em Portugal, nunca lidei com nenhum, mas noutros países já vi. Há sete ou oito anos, havia um miúdo chamado Jason Watt [filho de mãe dinamarquesa e pai jamaicano] que era muito bom, mas sofreu um acidente que o deixou paraplégico. Provavelmente teria sido o primeiro negro a chegar à Fórmula 1". Bandeira em baixo Antes de Hamilton, o americano Willy T. Ribs esteve perto de ingressar na F1. Efectuou um teste no Estoril, em 1985, pela Brabham, equipa que à época era de Bernie Ecclestone, hoje o detentor dos direitos comerciais da F1, mas a estreia em corrida nunca aconteceu. O triunfo de Hamilton no mais importante campeonato automobilístico encerra também um ciclo de dificuldades para os pilotos negros, que durante anos enfrentaram obstáculos para se afirmarem na modalidade. Um exemplo aconteceu em 1963, precisamente o ano do célebre discurso de Martin Luther King no Lincoln Memorial, em Washington. Wendell Scott venceu uma corrida em Jacksonville, mas o director de corrida só agitou a bandeira de xadrez quando o segundo classificado (um branco) cortou a meta. E o troféu só foi entregue a Scott depois de os espectadores terem abandonado o circuito. Filho de uma britânica e de um descendente de imigrantes da ilha de Granada, nas Caraíbas, Hamilton não teve esses problemas. Mesmo não pertencendo a uma família abastada - o pai era empregado dos caminhos-de-ferro -, conseguiu reunir apoios importantes desde muito cedo, especialmente quando passou a integrar, aos 13 anos, o programa de desenvolvimento de pilotos da McLaren. Ron Dennis, o patrão da equipa britânica, desvalorizou a questão racial quando o apresentou, aos jornalistas, como piloto. "Sabemos da potencialidade da cor de Hamilton para ser usada nos vossos artigos e não escondemos esse facto, mas a cor não interessa." Há até quem diga, como Nuno Couceiro, que a cor da pele acabou por ser um aspecto a favor de Hamilton. "Ele é muito bom e mereceu ser levado ao colo pela McLaren até à F1, mas também interessa à equipa ter um piloto negro, por razões económicas." As estimativas parecem dar razão a este argumento. O Times aponta Hamilton como o potencial candidato a ultrapassar os rendimentos de mil milhões de dólares que, segundo a Forbes, Tiger Woods atingirá em 2010. A vitória de Hamilton foi vista em Inglaterra como o início de uma semana histórica para os negros, que a eleição de Barack Obama como Presidente dos EUA confirmou. "Saber que pode haver um Presidente negro e ver Hamilton vencer faz-me sentir bem, porque sou negro. Não há modelos suficientes para os jovens", comentou um estudante ao Guardian. Hamiltonmania Nuno Couceiro espera uma "Hamiltonmania em Inglaterra", como houve "Alonsomania em Espanha", após o título de 2005, com muitos jovens a tentarem seguir os passos do novo campeão. "A vitória no desporto representa, na 'sociedade do espectáculo', uma visibilidade que ultrapassa o sentido estritamente desportivo, contribuindo para mudanças nas representações sociais acerca da presença de negros no desporto e noutras esferas sociais", argumenta Fabiano Pries Devide, considerando normal que haja maior adesão de jovens a uma modalidade após a vitória de alguém com quem se identificam. O investigador brasileiro recusa-se, no entanto, a conferir ao desporto um papel "redentor". "O desporto, por si só, não deve ser visto como uma via de ascensão social ou uma instituição que possui autonomia em relação ao todo social. Pode ser visto como um terreno de contestação da hierarquia racial ou, por outro lado, como um espaço de reprodução da mesma", salienta Pries Devide. A análise é partilhada pelo antropólogo João de Pina Cabral. "O desporto talvez seja mais visível, mas não é uma área de destaque de categorias sociais diminuídas", aponta este investigador do Instituto de Ciências Sociais, para quem o cinema e a literatura até são campos mais interventivos. Sublinha também que os efeitos de um triunfo como este serão socialmente limitados. "O momento mais marcante foram os Jogos Olímpicos de Berlim, em que a vitória de americanos negros teve um papel político, no sentido de revelar a falsidade das teorias nazis. Não voltou a haver uma ocasião como essa", diz, referindo-se aos triunfos de Jesse Owens. Na sua curta carreira de dois anos como piloto de Fórmula 1, Hamilton tem sido discreto politicamente. Admitiu só que é admirador de Martin Luther King e Nelson Mandela e que gostava de ver Obama na Casa Branca, mas repete o low profile de Tiger Woods. Nenhum deles viveu ainda uma situação semelhante à de Michael Jordan, que, nos anos 1990, recusou criticar as tiradas racistas do senador republicano Jesse Helms. Hamilton já este ano foi, porém, vítima de incidentes racistas, quando efectuou testes em Espanha. O pai do inglês admitiu esta semana que ponderou retirar o filho do automobilismo: "Cheguei a pensar que talvez este não fosse um lugar para a minha família". O jovem britânico continou e sagrou-se, aos 23 anos, o mais jovem vencedor de sempre do Mundial de F1. E na hora da vitória não quis fazer grandes leituras raciais. "Nunca fui para uma corrida a pensar que era o único negro. Adoro correr e espero que ganhar o campeonato abra as portas para que outras culturas e jovens possam realizar os seus sonhos. Eu estou a viver o meu."
Escrito por Fabiano Pries Devide às 13h34
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