GÊNERO NA EDUCAÇÃO FÍSICA, DESPORTO E LAZER - Prof. Dr. Fabiano Pries Devide


Esporte e Homofobia

Lendo mensagem publicada na internet, sobre o convite da Federação Inglesa de Futebol aos jogadores David Beckham e Cristiano Ronaldo para participarem de vídeo acerca de uma campanha sobre o combate à homofobia no futebol [vide o site português: http://www.maisfutebol.iol.pt/noticia.php?id=1029661&div_id=1488 ], parei para refletir em algumas linhas sobre como o esporte, paradoxalmente, pode se configurar como um espaço de culto à masculinidade hegemônica (Connell, 1995) e ao comportamento homofóbico e também de legitimação de práticas sociais homoeróticas, que por ocorrerem na arena esportiva, não são contestadas pela sociedade heterossexista.

"Em nossa cultura, a manifestação de afetividade entre meninos e homens é alvo de uma vigilância muito mais intensa do que entre as meninas e mulheres. (...) as expressões físicas de amizade e de afeto entre homens são controladas, quase impedidas, em muitas situações sociais. (...) A homofobia funciona como mais um importante obstáculo à expressão de intimidade entre homens" (Louro, 2001, p. 27-28).

Enquanto as amizades masculinas tendem a ser superficiais por, entre outras razões, os homens serem ensinados a serem homofóbicos, emocionalmente inexpressivos e competitivos, o esporte competitivo tem sido um elemento que media os relacionamentos entre os homens em outras vias que lhes permite desenvolver uma poderosa ligação enquanto ao mesmo tempo os previne do desenvolvimento da intimidade, uma vez que eles tendem a fazer "coisas juntos", p. ex., jogar e competir, mas não gastar o tempo conversando sobre suas vidas pessoais: trabalho, família, relacionamentos etc.

Embora a homofobia seja um mecanismo de controle da manifestação de afeto entre homens na sociedade contemporânea, o esporte providencia oportunidades para que estes mesmos homens criem grupos fechados e vivenciem situações intensas de intimidade de forma legítima em alojamentos, vestiários, parcerias em caçadas e pescarias, concentrações pré-competições, rodas de chope, entre outras situações nas quais a presença de mulheres não tende a ser admitida (Louro, 2001).

O vínculo erótico entre homens atletas é neutralizado através da homofobia e do posicionamento das mulheres como objetos sexuais em conversas. Assim, a masculinidade heterossexual é construída coletivamente, a partir da prática de denegrir a homossexualidade e a feminilidade como "não-masculinas" (Messner, 1992). Uma das vias para isto é a elevação do corpo e da sexualidade masculina como superior à feminina. No universo homossocial do esporte, a negação de qualquer impulso homoerótico é um elemento chave desta elevação da superioridade heterossexual. Por isso, podemos dizer que o esporte moderno é uma instituição genderizada; uma instituição social construída por homens como uma resposta à crise das relações de gênero na virada do século XIX e XX.

As estruturas e valores dominantes do esporte refletem os medos e necessidades de uma masculinidade ameaçada. O esporte é construído como um universo homossocial com uma divisão masculina do trabalho que exclui as mulheres. Sem dúvida, o esporte simboliza a estrutura masculina de poder dos homens sobre as mulheres e finalmente, constitui e legitima uma organização social heterossexista da sexualidade. Como resultado, a instituição esportiva no século XX desempenhou um papel chave na construção e estabilização de um sistema dominante masculino e heterossexista das relações de gênero (Messner, 1992).

Cabe refletirmos sobre os mecanismos pelos quais jogadores como Richarlyson ou Sol Campell sofrem com a homofobia no esporte, que ultrapassa as quatro linhas dos campos de futebol inglês. Nesse aspecto, o esporte - sobretudo aquelas modalidades consideradas bastiões da masculinidade - deve ser interpretado como instituição social que reflete questões sociais circulantes na sociadade contemporânea.

Indicações de leitura: [1] LOURO, G. L. Pedagogias da Sexualidade. In.: Louro (org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Autêntica: Belo Horizonte, 2001. p. 7-34.  [2] MESSNER, M. A. Power at Play: sports and the problem of masculinity. Boston: Beacon Press, 1992. [3] CONNELL, R. W. Políticas da masculinidade. Educação & Realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206, 1995.

 



Escrito por Fabiano Pries Devide às 11h02
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