Desmistificando a relação causal identidade de gênero-identidade sexual no esporte
Caros/as leitores/as, uma das discussões inerentes aos estudos de gênero tem sido a crítica à relação linear da sociedade heterossexista sobre a relação sexo biológico-identidade de gênero-identidade sexual. Judith Butler (2003), em sua obra "Problemas de Gênero: femininsmo e subversão da identidade" aborda a questão com maestria. É quando homens e mulheres rompem tal linearidade que presenciamos o preconceito nas práticas sociais cotidianas. Neste contexto, o esporte, sobretudo aqueles de reserva masculina, despertam o medo nos pais de meninas que os praticam e apresentam habilidades para se tornarem grandes atletas. O maior receio é que a prática destas modalidades determinem a identidade sexual de suas praticantes. Há mais de uma década, estudos de gênero no esporte realizados em países europeus (CAHN, 1995) e norte-americanos (GRIFFIN, 1998), têm abordado a equação sexualidade-prática esportiva-identidades e encontrado que mulheres lésbicas tendem a escolher modalidades de reserva masculina por serem um espaço de socialização entre iguais, onde não precisam encobrir suas verdadeiras identidades. O estudo de Raquel Silveira - vide resumo abaixo - encontra dados similares. Cabe aos profissionais de Educação Física problematizarem tais questões em suas aulas, nos diversos espaços de atuação, visando a desmistificação de tais representações que tendem a perpetuar barreiras para inserção de homens e mulheres em modalidades interpretadas como opostas aos seus gêneros.
Indicações de leitura: BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilizaçao Brasileira, 2003. GRIFFIN, P. Strong women, deep closets: lesbians and homophobia in sport. Champaign: Human Kinetics, 1998. CAHN, S. K. Coming on Strong: gender and sexuality in twentieth-century women's sport. London: Harvard University Press, 1995.
Esporte, homossexualidade e amizade : estudo etnográfico sobre o associativismo no futsal feminino Raquel da Silveira http://biblioteca.universia.net/ficha.do?id=38074626
Neste estudo, me propus a discutir o associativismo esportivo de mulheres em esportes que são ditos masculinos. Para tanto, optei em fazer uma investigação etnográfica em um time de futsal feminino da cidade de Porto Alegre. Realizei 51 idas a campo (treinos, jogos oficiais e atividades extraquadra) e dezessete entrevistas. A equipe investigada era formada por dezessete jogadoras, um técnico e sete pessoas que a acompanham sistematicamente. As praticantes, com idades entre dezesseis a 41 anos, tinham características sócio-econômicas heterogêneas. Como o associativismo é um conceito que remete à sociação de pessoas para determinado fim, surgiu-me um questionamento: como e porque mulheres se associam para praticar um esporte socialmente considerado masculino? Constatei, então, a partir das observações feitas, que três aspectos eram os principais para que o associativismo estudado fosse mantido, a saber: o esporte, a homossexualidade e a amizade. O esporte, nesse time, apresentava características muitas vezes vistas como opostas, mas que nele se tornaram complementares: brincadeira e seriedade; lazer e trabalho, utilidade lúdica e utilidade pública, valor de uso e valor de troca. Em relação à categoria “homossexualidade”, identifiquei três aspectos importantes: o gerenciamento da visibilidade da opção homossexual por parte das pesquisadas dentro e fora do universo do futsal; um tipo de feminilidade sendo objeto de distinção entre a equipe investigada e outras equipes da grande Porto Alegre; o futsal como um espaço de lazer para as mulheres homossexuais em questão. Na discussão da categoria amizade, realizei uma análise que mostrou aproximações e distanciamentos das informações obtidas nesta pesquisa com estudos do campo da filosofia, com foco nesse tema. Verifiquei, ainda, que as relações de amizade nesse time eram duradouras, e, em certa medida, proporcionam uma ascese aos indivíduos. Para finalizar, destaquei que a principal contribuição trazida por este estudo foi a riqueza das informações empíricas – obtidas através da etnografia – que tiveram a capacidade não só de surpreender como, também, de desestabilizar saberes, muitas vezes, nem questionados.
Escrito por Fabiano Pries Devide às 21h48
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