GÊNERO NA EDUCAÇÃO FÍSICA, DESPORTO E LAZER - Prof. Dr. Fabiano Pries Devide


Resumo da palestra apresentada na mesa-redonda realizada no I Encontro do NESPEFE: Corpo e Educação Física, ENEFD/UFRJ, 10.09.09.

O EXERCÍCIO FÍSICO NA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DE GÊNERO: POR UMA MASCULINIDADE PLURAL

Fabiano Pries Devide[1]e Renata Silva Batista[2] 

A produção acadêmica sobre Gênero e Esporte na última década reflete a emergência desta nova temática na Educação Física brasileira (Romero, 1995; Votre, 1996; Saraiva, 1999; Simões, 2003; Júnior, 2003; Goellner, 2003; Simões e Knijnik, 2004; Devide, 2005). No entanto, a tendência dos estudos tem sido focalizar as mulheres, constituindo uma sub-representação dos estudos sobre a masculinidade na interface com o gênero (Fraga, 2000; Gonçalves, Munarin, Gonçalves, 2002), como já ocorre na América do Norte e Europa (Dunning, 1992; Messner, 1992, 1994; Pronger, 1992; Dunning, Maguire, 1997). Pressupõe-se que o exercício físico e o esporte têm sido elementos importantes na construção da masculinidade no homem moderno, a partir das modificações que proporcionam em sua saúde, notadamente, na estética corporal, através de anatomias masculinas contemporâneas. Neste contexto, o estudo interpreta a mídia - especificamente dirigida ao público masculino - como uma via de construção de representações sobre a masculinidade ancorada no corpo do homem. A pesquisa tem por objetivo investigar qual o papel do exercício e do esporte na construção da masculinidade contemporânea, que se apresenta multifacetada e em crise (Lisboa, 1998), utilizando o gênero como uma categoria relevante de análise (Scott, 1995). O corpus documental da pesquisa é constituído pelas doze primeiras edições da Revista masculina Men’s Health (maio de 2006-abril de 2007)[3][3]. A análise dos dados está organizada nas seguintes etapas: Pré-análise, com leitura exploratória das edições; análise iconográfica das capas das doze edições; e análise de conteúdo das matérias sobre exercício físico e esporte nas doze edições. Como referenciais teórico-metodológicos para a análise e a interpretação das fontes, utilizamos a Análise de Conteúdo (Bardin, 1995) e a Iconografia (Eco, 1997; Kossoy, 2001; Bauer, Gaskell, 2004; Ciavatta, Alves, 2004; Santaella, Nöth, 2005). Os resultados apontam que o periódico é dirigido ao público masculino, adulto, branco, heterossexual e economicamente favorecido. O elemento icônico central das capas é representado pelo corpo masculino ideal, cuja musculatura é a protagonista de uma anatomia de consumo (Fraga, 2000); enquanto entre os elementos textuais, as manchetes sobre exercícios físicos são destaques. A análise do conteúdo interno permite inferir que as matérias apresentam como principais pautas: o exercício físico, o sexo, a saúde, a alimentação, a psicologia, a moda e a beleza, com o objetivo de que o homem contemporâneo alcance bem-estar e qualidade de vida. A análise do conteúdo possibilitou a identificação de duas categorias centrais: a Masculinidade Hegemônica, em matérias que valorizam aspectos como poder, trabalho, competição, dominação masculina e superação; e Outras Masculinidades, em matérias que abordam conteúdos relacionados, entre outros, às dicas de beleza, moda, bem-estar e aspectos afetivos. A análise das matérias sobre o exercício físico, identificou que o mesmo ancora elementos relacionados à masculinidade hegemônica, como a aptidão física, a tolerância à dor, o machismo, a heterossexualidade; e também relacionados às outras masculinidades, como a preocupação estética. Concluímos que a Men’s Health, como uma mídia direcionada ao público masculino, vem contribuindo para a construção de uma masculinidade plural, composta tanto por elementos tradicionalmente associados à masculinidade hegemônica, como a imagem de um corpo fisicamente apto, musculoso, “sarado”, “ideal”; como por novos elementos incorporados ao cotidiano dos homens, tais como a preocupação com a beleza, representando mudanças e o diálogo com outras masculinidades.



[1] Professor Adjunto do PGCAF-Universo/RJ e da UNISUAM/RJ. Coordenador do Grupo de Pesquisa Gênero e Mulheres no Esporte/CnPQ.

[2] Licenciada em Educação Física/Unisuam-RJ.

[3] Este periódico foi editado pela Rodale, nos Estados Unidos, há 18 anos. É publicado em 41 países, com mais de 16 milhões de leitores. Recentemente foi publicado no Brasil pela Editora Abril em maio de 2006, com tiragem inicial de 100 mil exemplares.



Escrito por Fabiano Pries Devide às 00h15
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